O QUE ACONTECERIA SE TODOS FOSSEM
EMPREENDEDORES E AUTÔNOMOS?
Meu desejo aqui não
é “jogar um balde de água fria” em você ou em seu sonhos, mas trazer um alerta
e uma reflexão necessária para hoje. Alguns pensadores sábios e estudiosos da
economia e do empreendedorismo já apontaram nuances importantes que geralmente
ficam de fora da “mensagem de marketing” que diz: “todo mundo deve empreender,
largue o emprego, seja seu próprio chefe”. A seguir, apresento alguns dos
principais argumentos da direção oposta a isso.
Nem todo mundo deve
ou pode empreender. Reid Hoffman (cofundador da LinkedIn) é bastante direto: “A
resposta curta é não. Ser um fundador significa entrar em um jogo no qual as
probabilidades estão contra você.” Ou seja: dizer que “todo mundo” pode ou deve
empreender ignora que existem habilidades, recursos, redes, visão e uma margem
grande de risco envolvidos.
Essa narrativa
“todo mundo empreendedor” pode ser prejudicial. Em um artigo intitulado
“Entrepreneurship Is a Privilege — Stop Pretending It’s for Everyone”, é
afirmado que: “A ideia de que o empreendedorismo é para todos não só exclui
grandes faixas de pessoas, como também cria dano real para aqueles que se
sentem pressionados para se encaixar no molde.” Em outras palavras: promover
que “todo mundo deve largar o emprego e empreender” pode gerar culpa, ansiedade
e sensação de fracasso em quem não consegue ou não quer trilhar esse caminho.
A economia ou o Mercado
não funciona se todos forem “vendedores/autônomos.” Embora não haja uma frase
exata de um pensador dizendo “se todos empreendermos, quem comprará?”, a
análise econômica implícita aponta que o emprego assalariado, os operários, os
prestadores de serviços, os produtores — ou seja, as várias camadas da economia
— são interdependentes. Por exemplo, no modelo de auto-emprego analisado por
Jake Bradley: “Trabalhadores autônomos representam entre 8 e 30 % dos
participantes nos mercados de trabalho de países da OCDE. Isso implica que a
estrutura de emprego tradicional ainda existe e é necessária. Se todos fossem
“autônomos/vendedores”, a própria demanda, os salários, os investimentos
poderiam ser afetados.
Produzir precede
consumir — ou seja, demanda depende de oferta qualificada. Jean Baptiste Say,
economista francês do século XIX, cunhou a chamada “Lei de Say”, segundo a
qual: “A produção cria a demanda” — ou, segundo algumas interpretações: “a
oferta cria sua própria demanda”. Isso sugere: não basta o ato de “ser
empreendedor/vendedor” sem que exista algo concreto, útil, gerador de valor,
que sustente a atividade econômica.
O contexto institucional e o nível de desenvolvimento
importam. Num estudo recente de Christopher J. Boudreaux sobre
empreendedorismo, instituições e crescimento econômico: “Empreendedorismo
incentiva crescimento econômico mas não em países menos desenvolvidos; o
ambiente institucional importa.” Em outras palavras: não basta “cada um virar
empreendedor” — o ambiente, as regras, o ecossistema econômico, a capacitação
também fazem a diferença.
Prof. Carlos Carvalho
Escola de Gestão da Vida
